Porta-retrato.
A cabeça pende e o olha.
Pisco.
E nesse piscar o tempo desacelera,
fragmenta-se, dividi-se em pequenos trechos,
e o segundos demoram horas a passar.
A isso dão o nome de nostalgia.
O tempo passando em slow motion.
Gosto de dizer que ele caminha apaixonadamente
a encontrar os sonhos realizados.
Na mesa ao lado, uma foto comum:
alguém sorrindo.
Volto, retrocedo.
Ainda venta e eu grito:
- XIIIIS.
E clique.
Eternizei a dor, a paixão, a saudade, tudo ali
naquele sorriso.
Pulo na cama, emociono-me lembrando
que depois daquilo não pudemos ver o resultado da foto.
Não havia display digital, temporizador,
não pude compartilhar
e o efeito vintage é do tempo.
Passo a mão na barriga,
suo frio.
A sensação de queda me toma.
Morrer é deixar de lembrar, sentir falta,
resgatar, alimentar-se do belo.
Pisco.
Depois daquilo andou, pisou na lama
e eu não via mais o sorriso, mas as costas,
a nuca,
o vestido revolvendo com o balanço do corpo.
Aquela tarde inteira
dentro de um sorriso,
ao lado da cama.
Hoje sinto um vazio enorme vendo-a.
Há um querer de sentir o mesmo, de não deixar os segundos passarem,
atravessar o tempo
e ficar, instalar-se em um único momento
como se fosse possível.
Pisco.
Anoiteceu.
Choro, e lembro que a nostalgia alimenta,
mas também tira.




[Ouvindo: Perotá Chingó]

3 comentários:

  1. Que maneira linda de falar de fotografia, um perspectiva tão intensa. Fotografia é nossa fonte de comunicação nos dias de hoje, com a era tecnológica, momentaneamente registramos nossos sentimentos. Abraço

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  2. Que riqueza de palavras... O mais triste de hoje é que foto ficou tão banal, às vezes parece que a magia se perdeu um pouco...

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