Desacordo


Eu não tenho traços bonitos
Tenho a alma perdida
Encontro ela vezenquando na esquina
Dou um beijo, a afago
Pergunto seu preço e está barata
Não faço mais nada

Desertifico meus dias procurando-me
(Não só a alma, mas também a mente)
E acabo por encontrar-me
Macambúzio
No meio-fio do inferno.
As labaredas acariciam minha cara
Conforto de quem tem nada
Não é
E não consegue forjar.
Já fui, certa feita, marionete
Mas as amarras pelo corpo cansam.

Tento lembrar
A última vez que escovei os dentes
E o cabelo.
A memória fraca diz-me que nunca
Mas lembro-me de certo asseio
Em algum momento.

Sou, agora, um personagem de Machado de Assis
Ou Fernando Sabino
Deitado à alcova
Esperando o derradeiro, o que fecha a cena.
Contudo, a eles coube, antes do fim, o começo e o meio
E a mim, cabe apenas lamentar
Não ter aproveitado as chances
Batidas à porta.

4 comentários:

  1. Essas chances não aproveitadas sempre querendo nos anular... Ainda bem que existe a poesia.

    ResponderExcluir
  2. Sou um e nenhum, sou ninguém. Sou qualquer um.
    Sou o sol, a luta ou o mar
    Sou a experiência a aprofundar.

    dentrodabolh.blogspot.com

    ResponderExcluir