O Mistério de Henriquet

I


Como em um passe de mágica - coisa que não acontecia no mundo real, pensava ele - as suas intuições mudaram. Fruto do constante pensamento de saber e não saber sobre todas as coisas. As coisas, que ele achava saber, na verdade, não as sabia. Um começo um pouco conturbado, mas nada era muito simples na cabeça de Henriquet. Sim, Henriquet com esse t mudo. Erro de datilografia por parte do escrivão, na hora de registrá-lo.

Henriquet assustou-se com a ideia de não ser quem achava ser. Deu-se conta de que todas as coisas que fazia serviam para um ideal muito maior do que aquele vislumbrado por ele. Estudava porque pensava ser o melhor caminho para um futuro bom; era isso o que os pais diziam. Era um bom rapaz, tinha apenas 14 anos, mas era tido como um adolescente exemplo dentro da família.

Não gostava do título, o achava pretensioso e bem distante daquilo que era e se propunha a ser. Mas ele nada podia contra aqueles que diziam e desdiziam sobre sua vida. Família grande, seu pai tinha três irmãos e sua mãe três irmãs. Todos achavam uma bela coincidência, mas ele não. Sempre pensou haver algo de estranho com a parecência das famílias, mas todas as vezes que Henriquet se metia a dizer sobre essas e todas outras coisas que batiam em sua cabeça, os adultos se entreolhavam e mudavam de assunto. Como a puxarem um cabresto.

Mas vamos voltar ao instante inato da sabedoria sobre as coisas que ele achava saber. Deu-se, como dito antes, subitamente. Como sabemos, porém, nada nessa vida tem algo de súbito e espontâneo. Por meandros que desconhecemos ou não conseguimos lidar, toda a nossa vida é comandada. Todo o livre arbítrio é mentiroso e mascarado por tantas coisas que não caberiam nessa página. 

Henriquet encontrava-se quieto e distante, pensando, lendo, estudando. Em um dos seus costumeiros instantes de aquietação dentro de seu quarto. Lá embaixo, seu pai lavava o carro e a mãe a louça. Eram uma família comum: pai, mãe, filho. Uma hierarquia sempre muito respeitada. Dentro do livro que lia, havia a história de um caçador que socorria a família tendo que matar outras. Era o trato do caçador com o rei. Ou matava as famílias que  incomodavam a majestade ou a sua própria teria um fim trágico.

Henriquet achou aquilo dúbio, inquietante. Como poderia o caçador ser tão frio. Fazia aquilo que não queria para a sua família. Matava para não morrerem os seus queridos. Sua mãe sempre o ensinou que não se podia fazer o mal. Seus pais trabalhavam para poderem comer. Sua mãe se matava dia e noite dentro de casa para que todos pudessem ter o conforto que tinham. Respeitavam o pai, acima de qualquer coisa, porque esse era o certo. Como poderia ele fazer isso, então.

Prosseguia com a leitura cada vez mais perplexo. Eram já três famílias mortas. Em cada capítulo que se seguia, o caçador, narrador da história, contava os porquês de cada família estar sendo sacrificada. Coisas banais. Atraso de impostos, desavenças de outros tempos, problemas típicos do cotidiano que, segundo seus pais, seriam facilmente dissolvidos com uma conversa e apresentação de argumentos astutos. Mas ali, eles todos morriam, por terem sido contrários a uma ideia eles morriam. Como era estranho.

No meio do livro, porém, houve o estalo dito quando Henriquet deparou-se com a frase: 


"Nada na vida, em todos os seus aspectos, tem apenas um lado". 


Como ele ficou surpreso com tal afirmação. Henriquet tirou os olhos do livro e deitou-se na cama. Olhou fixamente o teto. Não era uma frase muito complexa, ele a havia entendido. No entanto, o que o deixara mexido era o entendimento que se podia tecer dela. Nada tem apenas um lado. Nada. Como nada? Há que haver. E o bem e o mal. O lícito e o ilícito, as coisas todas que se fazem para ser feliz e as outras tantas que se faz para deixar as mazelas para trás? Não poderia ser verdade.

De lá de baixo, ouviu sua mãe gritar para que descesse. O jantar estava pronto. Marcou a página, fechou o livro e desceu. Na mesa, seus pais conversavam sobre banalidades. Os vizinhos eram o centro das discussões. A filha de uma das vizinhas havia sumido de casa, não dava notícias. Deixou, no entanto, um bilhete embaixo do travesseiro dizendo que agora estava bem e que não a procurassem. Seu pai se dizia estarrecido com tamanha falta de consideração. 

- Então, um pai se mata para criar a filha e ela o deixa assim, dizendo que AGORA está bem? Eu não perdoaria nunca.

Henriquet pensou sobre o que o pai dizia e a frase do livro não lhe saía da cabeça. Nada tem apenas um lado. O que isso significaria. Sendo a frase empregada para todos os aspectos da vida, como ela se encaixaria no desaparecimento da vizinha. A filha que fora embora era sua conhecida. Trocavam algumas palavras dia sim, dia não, quando ele ia para a natação. Seu pai fazia questão que ele fizesse algum esporte. Ele decidiu por nadar. Tinha vergonha do seu corpo, era muito magro e era alvo de piadas entre os colegas, mas nadando, ele poderia se esconder.

Sempre a via triste. Nunca sorriu para ele, mesmo quando esse fazia questão de sorrir, demonstrando felicidade em vê-la. Era uma artista. Desenhava coisas lindas. Na escola, na aula de artes, era uma das mais elogiadas pela professora. Tinha seus desenhos expostos quase que semanalmente em um dos quadros de aviso que a escola mantinha. Não havia por que ela ser tão carrancuda. Nunca entendeu. Talvez fosse alguma coisa de menina, ele pouco entendia sobre o outro sexo.

Tentou empreender a frase na conversa dos pais.

- Pai, talvez ela tivesse algum motivo... Não sabemos o que se passava na casa, entre ela e os pais. - e arriscou - Nada tem apenas um lado.

O pai o olhou com estranheza. A mãe parou de comer para saber como reagir

- Como você pode dizer isso, Henriquet? Você já a viu com roupas velhas, com pouca comida na mesa, com os dentes tortos? Não. E por que você não a viu desse jeito? Porque o pai sempre deu de tudo a ela. Não existe um segundo lado para a ingratidão.

Henriquet, reteso em sua cadeira, decidiu não tentar nada além. Seu pai havia se alterado, a mãe também, mesmo que tentassem não demonstrar. Terminou seu jantar e subiu para ler mais um pouco. Lá embaixo, ouvia os pais conversarem sobre o que ele havia dito na mesa do jantar. Decidiu não ouvir a conversa. Críticas dirigidas a ele pouco o agradavam. Sempre acabava por ficar triste. Abriu o livro e continuou com a história.

O caçador já havia matado 5 famílias desde que começara sua jornada, para salvar a sua própria. Mais de uma dezena de pessoas mortas para que sua esposa e filhos sobrevivessem. Agora ele voltava para o castelo do rei. Todas as famílias estavam mortas, todo o sangue estava derramado. Não havia mais o que fazer pela floresta. Queria voltar para os braços de sua família. Poder aproveitar o campo, plantas as frutas, colher os grãos, caçar a carne para o jantar. Ver sua esposa curando a roupa. Tudo o que um homem pode esperar da vida.

No meio do caminho, no entanto, um Arguto apareceu para ele. Argutos são mensageiros e informantes do Rei. Seres abomináveis. Conta a história que foram submetidos ao trabalho escravo por toda a eternidade por um dos seus ter traído o primeiro rei de todos, o Rei Demetrius, séculos antes. Este, o traidor, passava informações sigilosas sobre muitos dos procedimentos do castelo para os nativos. Quando descoberto, o Rei os transformou em trabalhadores escravos e desde então é assim.

Deu-se o seguinte diálogo entre o Arguto e o caçador:

- Se eu fosse você não voltaria para o castelo...
O caçador se assustou. Quando percebeu ser um arguto, tranquilizou-se e perguntou, ressabiado:
- E por que não? Toda a minha tarefa está concluída.
- Não há tarefa concluída para o rei. Isto está longe de acabar.
- O que você quer dizer com isto, Arguto?
- Não é a mim que você deve perguntar, é a Henriquet.

Henriquet deu um pulo. Jogou o livro contra a parede instantaneamente. Tomou-se de um medo até então desconhecido. Como seu nome estaria escrito naquele livro? Seria coincidência? Achou pouco provável. Estava escrito Henriquet, com o mesmo t mudo, o mesmo erro de datilografia. Seria um erro do revisor do livro? O que estava acontecendo. Foi então que o livro, já caído no chão, abriu-se e dele irradiava uma luz forte, que batia no teto. Henriquet tremeu-se todo. Pensou em gritar os pais, mas temeu por eles.

De dentro das páginas começou a ouvir alguns chiados. Coisa pequena, mas que foi crescendo, crescendo e quando tomou forma, conseguiu distinguir:


- Venha, Henriquet. Nada na vida, em todos os seus aspectos, tem apenas um lado. Venha conhecer o seu. Venha... Venha... Precisamos de você, Henriquet... Venha...


A luz foi ficando mais forte e a voz mais alta. Temeu que os pais pudessem ouvir algo. O que aquela voz queria com ele? Por que sua vida teria um outro lado que ele não conhecia? E por que ele deveria conhecer? Quem precisava dele? Aquilo tudo o causava muito medo, mas nada causava mais medo nele do que não saber das coisas. A sensação dentro do quarto foi tão intensa que Henriquet fez o que deveria ser feito, aquilo que sentia ser o certo. Ele descobriria o outro lado.

Andou até o livro e foi engolido. O livro fechou-se e um grande silêncio ecoou pela casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário