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Fernando

Ele era lindo como o dia pesado que terminara do lado de fora do prédio. O sol caía às 18:15, daquela segunda-feira, depois de um dia de trabalho. O dia fora chato. Durante as horas que esteve dentro do escritório, só pode pensar em como era lindo. O que sabia dele? Nada, na verdade. O nome que ele havia lhe dado era fictício, ele sabia. Fernando. Um nome comum, ao qual ele se agarrara com toda a força. Mas era isso e só. Fernando. Um rapaz que devia medir 1,80 de altura, não mais do que isso. Achava-o lindo, traços fortes, mas em um corpo magro, delicado. Gostava de encostar na poltrona, relaxar depois de beber uma cerveja e então Fernando saía da toca. Uma raposa. Olhos vidrados, retos, um pouco desconexos com a cena, mas Fernando era assim. Não dava para saber se fazia parte do show, da sensualidade, ou se ele havia fumado algo. Ele achava a última alternativa mais acertada.

Pendurava-se na barra de ferro. Tremia o corpo malhado, abria as pernas, de calcinha, rasgava o salto no assoalho de madeira. O seu peito sofria ao ver aquilo. Como poderia algo parecido com Deus estar ali, em um canto tão sujo da cidade. Ao vê-lo dançando pensava naquela frase aprendida há anos com a avó evangélica: quanto mais perto de Deus, mais se peca. Fernando era o mais fino pecado com cara de anjo. Faltavam-lhe as asas, mas tinha o rabo. Que rabo! Tão másculo, tão sórdido. Enquanto dançava ele não podia encostar. Nem durante e nem depois. Custou a entender que esse era o modo mais astuto de estimular o cliente. A gente tende a querer aquilo que não pode ter - filosofias de bar que se chocam com a realidade. Então se masturbava, pedia que Fernando virasse de costas, baixasse a calcinha e ficasse ali, com as mãos no chão, enquanto ele imaginava Fernando fora dali, na sua cama, em um dia lindo, sem a calcinha, sem o salto, sem nada.

Gostaria de tirá-lo dali. Quantos anos teria? Parecia ter 20 e poucos, mas era possível que tivesse 18, talvez menos. Nesse ramo a gente nunca sabe. Levaria Fernando e faria o quê? Esconderia? Colocaria em algum apartamento alugado, o amaria sem que ninguém soubesse. Não seria justo. Tirá-lo dali para trancafiá-lo em um apartamento, qual a diferença? Não conseguia pensar direito perto dele. A visão ficava turva, a cabeça envolta de algo que ele pouco conhece. Fernando cheirava feito as vagabundas de beira de estrada, mas o perfume nele era bom. Fedia sexo, mas as suas feições eram leves. Pelo que teria passado para que chegasse ali, para que fizesse isso. Quem era aquele garoto que mexia tanto consigo...

Soou o apito, havia dado sua hora. Ele pediu mais, mas os clientes não podiam dobrar o horário. Normas da casa. Jogou um cartão para Fernando, pediu que ligasse, ele devolveu o cartão e disse que não podia. Apontou o vidro atrás dele. Alguém estaria ali para que nada saísse do controle. Não sabia como se despedir. Se agradecia, se deveria chamá-lo de gostoso, rabudo, mas isso deviam falar com frequência, não queria parecer torpe, nojento como deveriam ser os outros clientes. Então disse que o amava. Saltou assim, repentinamente. Fernando virou-se e ele repetiu. Eu te amo, Fernando. Alguém o puxou para fora da sala, já deu seu horário, porra, gritaram-lhe. Olhou de volta, mas Fernando já não estava lá.

Andou até o carro olhando de um lado para o outro. Duvidava que alguém que o conhecia andasse por ali, mas receava ser visto. O trajeto até sua casa foi de choro. Um choro convulsivo, triste, uma dor profunda que ele provavelmente nunca mais teria. E não teve. Chegou em casa e beijou a esposa. Transaram, em algum momento ela pensou tê-lo ouvido mencionar um nome diferente, mas não deu bola, ouvira mal. E ele, ele nunca mais viu Fernando. Nunca mais voltou ao clube em que ele se apresentava, mas sonhava com ele todas as noites. Fernando aparecia nu, deitado em sua cama, com as pernas abertas, um anjo e suas asas. Dizia alguma coisa, ria de canto, ele não compreendia. Fernando então virava-se. Belo, pedia que lhe maltratasse, que fizesse como os outros, mas ele não fazia. Deitava-se com ele, riam, beijavam-se, comiam-se e... e... Fernando sumia e... Não sabia quem era... Que garoto lindo, que pernas... Que coxas lindas, rapaz... e... Isso, abra e me deixe ver... Não fala nada, só me deixa... e acordava.





A nossa timidez

Eu que sempre fora muito tímida, de uns tempos para cá adquiri estranhos hábitos. A princípio, eram coisas banais, como reparar demasiado no volume que o pau de qualquer homem faz na calça, reparar em seus pés, fazer o desenho inocente de uma barba em algum anúncio de lâmina de barbear, que eu achasse em alguma revista. Ter essas brincadeiras faz a alegria de qualquer mulher que começa a se descobrir. A minha se deu aos trinta anos, é verdade, mas a descoberta é sempre importante.

Depois, esses pequenos hábitos começaram a tornar-se algo mais sério, como minha excessiva frequência em lojas de departamento direcionadas ao público adulto, também vulgarmente conhecidas como sex shops - vulgarmente chamadas, mas como tenho gostado de me libertar: belíssimas sex shops -, a vontade de trepar com homens os quais eu nunca vi anteriormente e assim por diante.

Eu sempre gostei de homem, mas a gente acaba por gostar com parcimônia para não assustar à mãe ou à avó. Dava meus beijinhos em alguns homens que acabava conhecendo nos bares, em alguma balada marcada com os amigos. Uma mão boba no caminho de volta para casa, às vezes um boquete, para não passar a noite em branco, mas nada demais.

Sexo nunca fora algo comum para mim. Eu tinha em mente que trepar era sagrado, que a gente fazia bem, gostoso e com total liberdade somente com o nosso marido. Ou esposa. Nunca tive esses pequenos preconceitos que açoitam a alma humana. Mas gosto de homem, isso é inegável. Sempre soube e depois que essas transformações começaram a se evidenciar em mim, tive total certeza: meu negócio é pau.

Perdoem-me o linguajar um pouco chulo, mas perder as amarras é algo importantíssimo. E uma dessas importantes foi deixar de chamar o órgão sexual masculino de órgão sexual masculino e começar a chamá-lo de pau, pinto, cacete etc.

Pois bem, dito isso, devo dizer que a minha estranheza está no que tem acontecido há algumas semanas. Conheci um cara. Um cara lindo, Loiro, com o cabelo bagunçado, embaraçado mesmo e que me come como ninguém antes o fizera. Come como se eu fosse a última, como se o mundo fosse acabar, como se o seu pau nunca mais fosse funcionar se ele não derramasse em mim o seu leite e me purificasse de alguma forma.

Começamos com um aceno de cabeça, um cumprimento informal e quando me dei conta, eu estava na sua cama, do décimo oitavo andar de um belo edifício na zona sul, de quatro, gritando como se tivessem me forçado a alguma coisa. Não que ele o tivesse feito, mas gosto de deixar claro que sinto prazer. E eles adoram. Ele principalmente. A primeira vez que gemi e gritei, levei um tapa na bunda e ele pediu mais de mim. Sou submissa na cama e aceitei, e mais outros e outros tapas até que aquilo virou vício.

Tenho vício em homem. Pau é bom demais, mas não sei o que faço para equilibrar isso. Se minha mãe descobre que eu tenho me relacionado sexualmente com este rapaz diariamente, é capaz de morrer de um infarto fulminante, a coitada. Mas não posso negar, ter que frear os meus instintos é algo que fiz durante muito tempo, mas não quero mais. Eu chego em seu apartamento, tiro a roupa e deixo que aconteça.

Sexo é assim, é sensorial, a gente não precisa ter um corpo bonito, um par de seios maravilhoso, o cara não precisa ter um pau gigante, corpo definido e essas cobranças todas. Não, sexo é deitar - ou não - e fazer. Sentir, tremer, querer meter, querer lamber. Sexo também é beijar e deixar que as pernas tremam, que a língua acenda. Sexo não é essa performance que a gente tem se cobrado. Perna pra lá, olho pra cá, cara de filme pornô, creme hidratante que só faz a mão escorregar, um monte de cheiro que esconde o cheiro que realmente importa naquilo tudo. O cheiro do pau, da boceta.

Mas dizer isso tudo me dá um certo receio. A gente não pode falar o que pensa. Imagina se todos nós pudéssemos fazer exatamente aquilo que nos dá vontade. Talvez eu transasse o dobro. Talvez a gente não se olhasse pela rua. A gente nunca sabe. Ou talvez a gente se gostasse ainda mais, se curtisse de verdade. Mas a verdade das coisas pesam nossas almas e somos cobrados. Sempre somos cobrados pela posição que assumimos. Por isso essa minha preocupação, entendem? É difícil demais gostar de pau como gosto, sem poder dizê-lo livremente.

Vejo minhas irmãs falarem com minha mãe sobre a festa de casamento que farão, sobre os filhos que pensam em ter, a faculdade que não vai bem. As suas maiores preocupações. Pelo menos, são essas as que elas decidiram compartilhar com ela. E então penso como minha mãe reagiria de soubesse o que faço. Como eu perguntaria para minha mãe qual a melhor posição para chegar ao orgasmo? Ou a melhor posição para que eu não tenha, durante o sexo, uma pela cãibra?

Não me vejo nessa situação. Não a vejo nisso também. Minha mãe não suportaria ter que admitir que não sabe me responder isso tudo porque o sexo que fez com meu pai durante toda uma vida é mediano, que não vai bem, que não chega ao orgasmo ou que meu pai a come e vira de lado. Não que o seu prazer deva ser responsabilidade dele, mas que o prazer seja mútuo e a sua conquista seja compartilhada, com o peso de sua responsabilidade solidária.

O loiro eu ainda vejo sempre. Ele me come pesado, com os pelos do corpo me roçando inteira, com o pau que me machuca, com os pés bonitos. Ele não é só um homem, ele é um prazer. É tesão, é vontade de gritar de tanta vontade, de bater, de gozar. É o sexo personificado, é a essência de minha existência. Meter é algo que transcende a alma. Não é animal, é divino, é bonito, é algo que a gente deveria fazer sem medo.

Mas ele existe: o medo. E eu tenho. Tenho medo pelas pessoas que não trepam, que trepam mal ou que trepam com medo. Que não conseguem se relacionar adequadamente com outra pessoa, que se escondem dentro de si mesmas e que são ensimesmadas, sem conseguir se doar. Eu quero ainda conseguir falar com minha mãe sobre tudo o que eu sinto, faço e agonizo, mas ainda não posso. É proibido.

O Mistério de Henriquet

I


Como em um passe de mágica - coisa que não acontecia no mundo real, pensava ele - as suas intuições mudaram. Fruto do constante pensamento de saber e não saber sobre todas as coisas. As coisas, que ele achava saber, na verdade, não as sabia. Um começo um pouco conturbado, mas nada era muito simples na cabeça de Henriquet. Sim, Henriquet com esse t mudo. Erro de datilografia por parte do escrivão, na hora de registrá-lo.

Henriquet assustou-se com a ideia de não ser quem achava ser. Deu-se conta de que todas as coisas que fazia serviam para um ideal muito maior do que aquele vislumbrado por ele. Estudava porque pensava ser o melhor caminho para um futuro bom; era isso o que os pais diziam. Era um bom rapaz, tinha apenas 14 anos, mas era tido como um adolescente exemplo dentro da família.

Não gostava do título, o achava pretensioso e bem distante daquilo que era e se propunha a ser. Mas ele nada podia contra aqueles que diziam e desdiziam sobre sua vida. Família grande, seu pai tinha três irmãos e sua mãe três irmãs. Todos achavam uma bela coincidência, mas ele não. Sempre pensou haver algo de estranho com a parecência das famílias, mas todas as vezes que Henriquet se metia a dizer sobre essas e todas outras coisas que batiam em sua cabeça, os adultos se entreolhavam e mudavam de assunto. Como a puxarem um cabresto.

Mas vamos voltar ao instante inato da sabedoria sobre as coisas que ele achava saber. Deu-se, como dito antes, subitamente. Como sabemos, porém, nada nessa vida tem algo de súbito e espontâneo. Por meandros que desconhecemos ou não conseguimos lidar, toda a nossa vida é comandada. Todo o livre arbítrio é mentiroso e mascarado por tantas coisas que não caberiam nessa página. 

Henriquet encontrava-se quieto e distante, pensando, lendo, estudando. Em um dos seus costumeiros instantes de aquietação dentro de seu quarto. Lá embaixo, seu pai lavava o carro e a mãe a louça. Eram uma família comum: pai, mãe, filho. Uma hierarquia sempre muito respeitada. Dentro do livro que lia, havia a história de um caçador que socorria a família tendo que matar outras. Era o trato do caçador com o rei. Ou matava as famílias que  incomodavam a majestade ou a sua própria teria um fim trágico.

Henriquet achou aquilo dúbio, inquietante. Como poderia o caçador ser tão frio. Fazia aquilo que não queria para a sua família. Matava para não morrerem os seus queridos. Sua mãe sempre o ensinou que não se podia fazer o mal. Seus pais trabalhavam para poderem comer. Sua mãe se matava dia e noite dentro de casa para que todos pudessem ter o conforto que tinham. Respeitavam o pai, acima de qualquer coisa, porque esse era o certo. Como poderia ele fazer isso, então.

Prosseguia com a leitura cada vez mais perplexo. Eram já três famílias mortas. Em cada capítulo que se seguia, o caçador, narrador da história, contava os porquês de cada família estar sendo sacrificada. Coisas banais. Atraso de impostos, desavenças de outros tempos, problemas típicos do cotidiano que, segundo seus pais, seriam facilmente dissolvidos com uma conversa e apresentação de argumentos astutos. Mas ali, eles todos morriam, por terem sido contrários a uma ideia eles morriam. Como era estranho.

No meio do livro, porém, houve o estalo dito quando Henriquet deparou-se com a frase: 


"Nada na vida, em todos os seus aspectos, tem apenas um lado". 


Como ele ficou surpreso com tal afirmação. Henriquet tirou os olhos do livro e deitou-se na cama. Olhou fixamente o teto. Não era uma frase muito complexa, ele a havia entendido. No entanto, o que o deixara mexido era o entendimento que se podia tecer dela. Nada tem apenas um lado. Nada. Como nada? Há que haver. E o bem e o mal. O lícito e o ilícito, as coisas todas que se fazem para ser feliz e as outras tantas que se faz para deixar as mazelas para trás? Não poderia ser verdade.

De lá de baixo, ouviu sua mãe gritar para que descesse. O jantar estava pronto. Marcou a página, fechou o livro e desceu. Na mesa, seus pais conversavam sobre banalidades. Os vizinhos eram o centro das discussões. A filha de uma das vizinhas havia sumido de casa, não dava notícias. Deixou, no entanto, um bilhete embaixo do travesseiro dizendo que agora estava bem e que não a procurassem. Seu pai se dizia estarrecido com tamanha falta de consideração. 

- Então, um pai se mata para criar a filha e ela o deixa assim, dizendo que AGORA está bem? Eu não perdoaria nunca.

Henriquet pensou sobre o que o pai dizia e a frase do livro não lhe saía da cabeça. Nada tem apenas um lado. O que isso significaria. Sendo a frase empregada para todos os aspectos da vida, como ela se encaixaria no desaparecimento da vizinha. A filha que fora embora era sua conhecida. Trocavam algumas palavras dia sim, dia não, quando ele ia para a natação. Seu pai fazia questão que ele fizesse algum esporte. Ele decidiu por nadar. Tinha vergonha do seu corpo, era muito magro e era alvo de piadas entre os colegas, mas nadando, ele poderia se esconder.

Sempre a via triste. Nunca sorriu para ele, mesmo quando esse fazia questão de sorrir, demonstrando felicidade em vê-la. Era uma artista. Desenhava coisas lindas. Na escola, na aula de artes, era uma das mais elogiadas pela professora. Tinha seus desenhos expostos quase que semanalmente em um dos quadros de aviso que a escola mantinha. Não havia por que ela ser tão carrancuda. Nunca entendeu. Talvez fosse alguma coisa de menina, ele pouco entendia sobre o outro sexo.

Tentou empreender a frase na conversa dos pais.

- Pai, talvez ela tivesse algum motivo... Não sabemos o que se passava na casa, entre ela e os pais. - e arriscou - Nada tem apenas um lado.

O pai o olhou com estranheza. A mãe parou de comer para saber como reagir

- Como você pode dizer isso, Henriquet? Você já a viu com roupas velhas, com pouca comida na mesa, com os dentes tortos? Não. E por que você não a viu desse jeito? Porque o pai sempre deu de tudo a ela. Não existe um segundo lado para a ingratidão.

Henriquet, reteso em sua cadeira, decidiu não tentar nada além. Seu pai havia se alterado, a mãe também, mesmo que tentassem não demonstrar. Terminou seu jantar e subiu para ler mais um pouco. Lá embaixo, ouvia os pais conversarem sobre o que ele havia dito na mesa do jantar. Decidiu não ouvir a conversa. Críticas dirigidas a ele pouco o agradavam. Sempre acabava por ficar triste. Abriu o livro e continuou com a história.

O caçador já havia matado 5 famílias desde que começara sua jornada, para salvar a sua própria. Mais de uma dezena de pessoas mortas para que sua esposa e filhos sobrevivessem. Agora ele voltava para o castelo do rei. Todas as famílias estavam mortas, todo o sangue estava derramado. Não havia mais o que fazer pela floresta. Queria voltar para os braços de sua família. Poder aproveitar o campo, plantas as frutas, colher os grãos, caçar a carne para o jantar. Ver sua esposa curando a roupa. Tudo o que um homem pode esperar da vida.

No meio do caminho, no entanto, um Arguto apareceu para ele. Argutos são mensageiros e informantes do Rei. Seres abomináveis. Conta a história que foram submetidos ao trabalho escravo por toda a eternidade por um dos seus ter traído o primeiro rei de todos, o Rei Demetrius, séculos antes. Este, o traidor, passava informações sigilosas sobre muitos dos procedimentos do castelo para os nativos. Quando descoberto, o Rei os transformou em trabalhadores escravos e desde então é assim.

Deu-se o seguinte diálogo entre o Arguto e o caçador:

- Se eu fosse você não voltaria para o castelo...
O caçador se assustou. Quando percebeu ser um arguto, tranquilizou-se e perguntou, ressabiado:
- E por que não? Toda a minha tarefa está concluída.
- Não há tarefa concluída para o rei. Isto está longe de acabar.
- O que você quer dizer com isto, Arguto?
- Não é a mim que você deve perguntar, é a Henriquet.

Henriquet deu um pulo. Jogou o livro contra a parede instantaneamente. Tomou-se de um medo até então desconhecido. Como seu nome estaria escrito naquele livro? Seria coincidência? Achou pouco provável. Estava escrito Henriquet, com o mesmo t mudo, o mesmo erro de datilografia. Seria um erro do revisor do livro? O que estava acontecendo. Foi então que o livro, já caído no chão, abriu-se e dele irradiava uma luz forte, que batia no teto. Henriquet tremeu-se todo. Pensou em gritar os pais, mas temeu por eles.

De dentro das páginas começou a ouvir alguns chiados. Coisa pequena, mas que foi crescendo, crescendo e quando tomou forma, conseguiu distinguir:


- Venha, Henriquet. Nada na vida, em todos os seus aspectos, tem apenas um lado. Venha conhecer o seu. Venha... Venha... Precisamos de você, Henriquet... Venha...


A luz foi ficando mais forte e a voz mais alta. Temeu que os pais pudessem ouvir algo. O que aquela voz queria com ele? Por que sua vida teria um outro lado que ele não conhecia? E por que ele deveria conhecer? Quem precisava dele? Aquilo tudo o causava muito medo, mas nada causava mais medo nele do que não saber das coisas. A sensação dentro do quarto foi tão intensa que Henriquet fez o que deveria ser feito, aquilo que sentia ser o certo. Ele descobriria o outro lado.

Andou até o livro e foi engolido. O livro fechou-se e um grande silêncio ecoou pela casa.

Janaína

Janaína eu conheci foi lá na casa de minha tia, Euzébia. Ela lavava a roupa da casa. Ia buscar toda terça e trazia de volta na quinta. Lavava e passava. A roupa voltava com cheiro de lavanda. Sempre tinha uma flor no cabelo e vestia vestido de renda. Tinha uma chinela de couro e um sorriso de matar qualquer peão desavisado.

Era uma força da natureza. Assim eu via Janaína. Coisa rara de achar. Tinha o par de pernas mais sensacional do subúrbio. Andava pra cima e pra baixo com aquela tentação de anca balançando. Passava em frente ao bar do Bataú rebolando e todo bêbado que lá estava levantava o copo e lhe dedicava um brinde. Era mesmo uma comemoração vê-la passando.

O dia que eu a conheci era uma terça de calor. Passava dos trinta e cinco graus. A coisa estava preta. Minha tia passava mal, tinha algo que não sabia explicar e não nos deixava falar com o médico. Nossa única alternativa era ficar com ela pra ajudar em alguma coisa.

Meio da tarde entra Janaína sem avisar. Já no meio da cozinha, todo mundo espantado, ela vê que tem gente diferente e faz é sorrir – Oi, sou Janaína, a lavadeira. Meu coração bateu forte, a mão tremeu, o suor escorreu leve na testa. Apresentei-me, disse que era sobrinho de tia Euzébia, Juninho, seu criado. Ela achou graça do diminutivo. Eu achei graça de ela achar graça. Rimos feito bestas.

Na quinta, ainda ajudando minha tia, entra Janaína toda rebolosa com a roupa na mão. Um vestido azul que contrastava com a pele morena de sol. Eu fui à loucura. Era água na boca que não dava mais. Acho que ela percebeu, perguntou se estava tudo bem, seu Juninho, e eu meneei a cabeça. Era uma aparição. Conversa vai e vem, a tarde passa e Janaína não se vai. Fez café, arrumou a roupa no armário. Ficou.

À noite, quase na hora do jantar, Janaína indo pra porta, eu disse que ficasse pra jantar com a gente, mas recusou, disse que tinha roupa ainda pra lavar e foi-se.

Terça seguinte fiz questão de estar lá. Arrumei a roupa suja da casa e esperei Janaína. Mal chego já me sorriu. – Seu Juninho, agora mora com Dona Euzébia, é? Fiquei envergonhado. Corei. Disse que não, que vim pra vê-la. Janaína riu de canto e me mandou catar coquinho. Quem dizia aquilo hoje ainda? Janaína era mesmo de se amar, falava o que queria, nem sempre o que a gente queria ouvir. Era genial.

Depois disso, era terça e quinta eu não faltava à casa de tia Euzébia. Ela achava graça do meu chamego com Janaína, mas me advertia dizendo que a garota era morena d’água, quando menos se esperava tinha ido com a correnteza. Fiquei sem entender, tia ficou sem explicar, mas deixei pra lá. Já tinha levado Janaína pra cama. Aquilo que era mulher, o resto era só peito e boceta. Janaína era um furacão.

Um dia disse à Janaína que a gente namorasse. Ela riu e nada disse. Eu insisti e ela me chamou de canto – Ô branco – me chamava assim, a danada – eu não tenho homem fixo não, gosto demais de você, mas não fico sem os outros.

Eu espantei, disse que tudo bem, que não fazia mal. Ela então foi embora e eu fiquei pensando, mas que diabos era essa história de outros? Então ela me comia daquele jeito, me dominava daquele jeito, aquele sorriso, aquela anca, aquela surra toda e ainda sobrava pra mais gente? Eu duvidei e fui procurar saber.

Dois dias depois, Janaína com a roupa voltou e a gente fez amor na mata, atrás da casa de tia. Terminado o chamego, ela foi embora e eu fui atrás. Segui a danada pela vida. Foi pra casa, lavou a roupa e saiu entregar a roupa que já estava pronta. Desceu pra casa de Antonico e lá ficou por mais de três horas. No dia seguinte, entregou roupa na casa de Agenor, Paulo e Fagundes. Janaina era uma puta.

Fiquei triste, doeu o coração e fui beber no Bataú. Chorei as pitangas, chorei na frente dos bêbados. Eles riam, mas me consolavam. Até que Bataú, homem mais velho e safado da redondeza, abriu a boca e disse o seguinte – Seu Juninho, Janaína é patrimônio público desse subúrbio, não há cabra que não tenha se deitado com ela. Querer prender a morena é a mesma coisa que enfrentar o mar, não acaba bem.

Fui pra casa com aquilo na cabeça. Dormi, acordei, fiquei dias na casa de tia Euzébia tentando pensar, mas a dor não passava. Fui pra minha casa. Trabalhei, deixei que os dias passassem. Saí com outras mulheres. Loiras, ruivas, morenas. Mas nenhuma delas era Janaína. Voltei em uma terça e Janaína estava lá, recolhendo a roupa. Olhou-me torto, fez graça com a boca. – Minha tia está? – Não, foi na casa de Dagmar.

Janaína não terminou a frase. Levantei o vestido e a comi ali na varanda. O cabelo anelado balançando, ela me chamando de Juninho baixinho no ouvido. Eu ficava louco. Mordia, batia na cara, sempre fui de fazer bem feito, mas Janaína estava deliciosamente safada e morena. O ombro que contraía, a bunda pra cima. A marca da calcinha branca naquela anca morena. Pegava sol todo dia, a danada.

Deitados na Varanda, perguntei como ela estava. Disse que bem, feliz. Sorriu-me. Um sorriso macio. A gente sentia Janaína toda. Ela não fazia amor com o sexo, Ela era inteira o sexo. Comer Janaína era algo literal, havia que morder pra ser inteiro, machucar, gozar. E não havia escapatória, uma vez Janaína, sempre Janaína.

Isso foi há quarenta anos. Hoje Janaína morreu. No velório, nunca vi tanto homem junto, tanta cueca chorando ao mesmo tempo, parecia mais rebaixamento do Corinthians pra segunda divisão. Um negócio emocionante. Todo mundo chorava e eu chorava junto. Era uma dor única, sofríamos em uníssono. Foi bonito.


Na hora de enterrar, era tanta flor em cima do caixão, que parecia primavera. O caixão desceu e todos nós aplaudimos. Morria um mito, uma deusa, Janaína foi mulher de todos nós, morreu de tanto amar. Janaína que era mulher de verdade, sem medo.

As chaves de Caio

Como um peso que cai morto do abismo, Caio deixou-se cair na cama, exausto, depois de foder a noite inteira. Não costumava ter com quem trepar, por isso, quando acontecia, aproveitava. Levou alguns aparatos. Chicote, algemas, gel lubrificante com gosto e aroma. Tomou um banho, fez a barba, mas deixou um pouco dos pelos no rosto. Também  no peito e no pau. O garoto disse que gostava. Caio era peludo, estatura mediana, passava um pouco dos 170 centímetros e tinha um sorriso encantador. Era a isca que ele usava para atrair os garotos que comia.

Chegou da rua e foi fazer um café. Coou no pano. Gostava de café forte e puro. Aprendeu a tomar café com o pai. Acordava de manhã, quando ainda morava com ele, e sentia o cheiro vindo da cozinha. Tomava café puro para o pai o notar. Não adiantava muito. Era um homem muito ocupado. Tinha uma empresa a que administrar, coisa que Caio nunca entendeu muito bem, mas que já havia visitado. Um escritório com muitos caminhões estacionados na garagem. Homens do lado de fora, pareciam mecânicos, todos de macacão e cheiro de graxa. Todos sujos.

Ele gostava do cheiro da graxa misturada com o suor. Sabia do cheiro pelo vizinho de parede. Jonas. Mecânico do bairro, era ele quem consertava o carro da família. Toda vez que Caio ia buscar o carro com o pai na oficina, Jonas lhe dava um pirulito com a advertência de que era para chupar só depois de almoçar. Ele dizia que sim, mas chegava em casa e se lambuzada com o doce. Caio guloso, assim era chamado pelo pai. Come de tudo o garoto, não pode ver comida, doce, fruta, não há o que chegue pra esse moleque, reclamava o pai. A avó advertia o pai, deixe que coma, é bom comer de tudo pra que tenha saúde.

Caio agora, deitado na cama, lembrava-se da avó. Pobre coitada. Uma velha mal amada, que dedicou-se a vida toda à família que a detestava. Não podiam ouvir sua voz que entortavam a cara, mas a chamavam para todos os eventos familiares, ficava feio não convidá-la. Olhou para o lado e viu sua foto no porta-retrato. Sorriu. Ela usava um chale tricotado por ela mesma. Adorava costurar, fazia de um tudo em crochê e tricô. Era admoestada sempre pelos filhos pela bondade. As pessoas passam a perna na senhora, minha vó, disse certa vez Caio. E ela nada disse, meneou a cabeça e sorriu.

A bondade da avó, Caio não havia herdado. Como herdar a bondade quando a maldade fora semeada desde cedo em sua alma? As coisas são como são ou são moldadas? Caio se perguntava sempre sobre isso. Não saberia dizer se as maldades que cometia eram coisa dele ou pelo que fizeram a ele. O garoto dessa noite gritou pouco, aceitou seu destino logo. Os olhos eram tristes, pouco confiantes. Tinham a água costumeira do choro, olham tristes para Caio. Com a boca amordaça, tentou gritar, mas deixou-se na cama, onde estava amarrado. Fechou os olhos e deixou que acontecesse o que tivesse que acontecer.

A primeira surra de Caio foi aos 12 anos, quando, sem querer, bateu a bicicleta no carro do pai. O Monza parado em frente à casa do subúrbio ficou um pouco riscado do lado direito, o que dava para a rua. Caio perdeu o equilíbrio e caiu em cima do carro. Com o peso do corpo e a velocidade em que estava, ele se arrastou  pela porta do carro recém-lavado. Brilhava que só. O pai tinha um amor todo sem sentido no carro, mais que no filho, todos sabiam. Caio apanhou com a mangueira do chuveiro. Apanhou trinta minutos, que para ele tiveram a duração de três horas. No começo tentou se esquivar, fugir, pedir socorro, mas depois que não viu jeito, chorou e ficou quieto. Deixou que o pai extravasasse a raiva. Ficou a semana toda sem ir à escola.

Caio range os dentes, senta-se na cama, coça o pau. Dói um pouco depois de tanto uso. Tirou para fora da cueca e deixou. Gostava de vê-lo assim, mole. Um pau mole, tão mais bonito que um pau duro. Macio, um peso morto gostoso no corpo. O primeiro fascínio com o próprio pau fora aos 14 anos. Não sabia o que significava masturbação, mas na escola, o próximo tópico, na aula de educação sexual, seria esse. Ficou com vergonha de chegar na escola sem saber. Se a professora perguntasse a ele e não soubesse responder, seria a piada para o resto do semestre, ano. Perguntou ao pai, que ficou sem jeito, coçou a garganta e disse que deixasse de besteira, que aquilo não era assunto.

Ficou sem entender, como aprenderia ele algo, na escola, que deixava o pai tão desconfortável. Seria certo?  Estava do lado de fora, jogando bola contra o muro. Coisa que fazia sempre que precisava desestressar. Viu o vizinho sair, o Jonas. Perguntou se ele estava bem e Caio respondeu que tinha algumas dúvidas. Mas quais são, rapaz? Caio pôs-se a falar. Falou da masturbação, que não sabia o que significava, qual era o problema em aprender, por que o pai havia rejeitado a ideia com tanta veemência já que a professora, de qualquer forma o ensinaria. Jonas riu. Olhou para os lados e a rua vazia. Caio, se você entrar aqui na oficina posso te ensinar o que é masturbar. O garoto entrou. Aprendeu.

Chegou em casa com um pirulito na boca, tentando disfarçar o gosto de sêmen na boca. Nunca contou para o pai. 

Levantou da cama e foi tomar um banho. Saiu nu do banheiro e assim ficou. Parou na janela. São Paulo trabalhava. A sua noite parecia incólume para a metrópole. Sempre teve a impressão que o indivíduo sempre foi parte descartável dentro de um sistema tão grande quanto aquela cidade. 40% do PIB nacional concentrado em frente à sua janela. Como uma cidade pode parar com tanto trânsito e violência? Como poder ser o paraíso de quem compra e o inferno para quem vive detento tanto dinheiro? Viver nela era o seu alívio. Ninguém o notava, ninguém sentia o seu cheiro. A sua saliva nunca foi alvo de julgamento. Ele escarrava nas bocas de lodo e ficava bem. Devolver à cidade aquilo que recebia. Troca justa.

Colocou a roupa para lavar. Na camisa o cheiro do suor. Havia transado em cima da própria roupa. Não tinha muito tempo para pensar em tirar a roupa. Raspou a própria e a do garoto também. O garoto tinha 18 anos, uma criança. Deixou-se enredar por Caio. Conheciam-se de olhares. Um dia Caio o convidou para tomar um café e conversaram a tarde inteira. Contou dos pais que não o aceitaram, aos 14 anos, quando ele se disse gay. Colocaram-no para fora de casa. Dormiu na rua, no começo, mas depois foi se ajeitando. Tudo o que ganhou com o trabalho que tinha, era investido. Tão novo e já tinha um apartamento. Pequeno, mas dele. Falava com orgulho. Caio sorria a cada nota de emoção que sentia na voz do rapaz. Por dentro ficava imaginando como ele gemia. Se gritaria, se gostaria. 

Como eram variadas as reações dos garotos com os quais já havia transado. Alguns gritavam, outros pediam pelo amor de Deus, depois percebiam que Deus estava longe dali. Outros choravam. Alguns deram trabalho. No fim, Caio conseguia sempre o que queria. Amarrava-os na cama. Mas antes transava com eles. Nunca foi direito ao que queria. Transava. Com alguns, passava a noite inteira junto. Comia-os como eles pediam. Quando algum garoto pedia, nas conversas anteriores à noite, me come com força, quero que você me maltrate, me mate de tesão, ele tinha uma pontada de pena. Nenhum deles poderia imaginar como vaticinavam a própria sorte.

O dessa noite havia sido até fácil. Haviam transado duas vezes. Na segunda ele pedira a Caio que o batesse. Pobre. No primeiro soco o garoto já havia se assustado, mas já não havia o que fazer. Caio deu três socos no rosto e um no estômago. Perdeu o ar e ficou zonzo. Caio então o amarrou na cama. Primeiro as mãos e depois os pés. Esticou bem e abriu as pernas. E fez o que sempre fazia. Matou o garoto. Primeiro alguns socos, depois alguns chutes. Enfiou o pé em sua boca. Mandou-o chupar. E o garoto chupou. Chorou, tentou morder, mas chupou. Caio o desfigurou e, um pouco antes de terminar o que sempre fazia, chegou perto do ouvido e disse, foi um prazer!

Saiu de lá, limpou todo o apartamento. Limpou como quem limpa a casa em dia de faxina e no fim botou fogo. Pelo que lia, sempre descobriam quem era a vítima, mas nunca conseguiram saber quem era o assassino. Chamavam-no de o Exterminador do Presente. Quase ficou ofendido com a alcunha conferida pela imprensa, mas considerou que aquilo era o detalhe menos importante.

Acordou no dia seguinte. Fez café, tomou banho e foi trabalhar. Passou em uma livraria e comprou algum romance. O atendente, um garoto de uns 16 anos, sorriu para ele. Ele piscou e sorriu de volta. Na nota fiscal havia seu telefone. Pobre.

Miguel

Hoje eu deitei na minha cama e estendi os pés, cansados. Os dedos doendo, acabava de tirar a botina depois de trabalhar. Um pé vermelho da amarra do calçado, tão amarrado quanto minha vida.
Deitei a cabeça de lado e lembrei-me de quando eu acordava cedo e tomava café da manhã na padaria por preguiça de fazer o café em casa. Acordava às quatro, me banhava, fazia a barba e, depois de vestido, saía de casa para o trabalho. Não sem antes passar na padaria e pedir um café preto.
Lá conheci Miguel, guri alto e ruivo, a barba bem feita por ser o balconista. Eu pedi o café a primeira vez e depois bastava eu chegar, puxar a cadeira e ele perguntava se descia o mesmo? E eu meneava com a cabeça positivamente. E ele me sorria. Abria uma boca cheia de dentes amarelados, uns dentes grandes dentro de um maxilar largo. Cara de cavalo.
Puxava assunto de um tudo comigo. Falava-me do time que torcia, dos jornais que já não conseguiam trazer uma reportagem digna, dos CDs que ele gostava e me dizia, vez ou outra uma poesia. Na verdade, ele dizia as músicas que gostava e faladas na sua voz macia, mas grossa, nos maxilares largos e na boca rosada, parecida com uma romã, ficava igual a poesia.
Nunca gostei de ouvir música, mas era Miguel falar uma daquelas e lá eu ia atrás. Baixava os CDs que ele dizia serem bons, lia livros pra poder também falar alguma poesia e me arriscava, vez em quando, assistir algum jogo de futebol a fim de conversar legal com Miguel.
Um dia me convidou pra passar à noite na padaria. Disse que iria fechar mais cedo e que alguns amigos iriam até ali beber uma cerveja. Convidou-me para ter com ele e seus amigos e, há tanto tempo não era convidado para nada, não hesitei. Nove horas em ponto e eu estava lá. Banhado, bem barbeado e vestindo uma bermuda e camiseta regata, que o calor não estava para brincadeira. Cheguei e já havia começado. Apresentou-me todo mundo, puxou uma cadeira pra mim e me serviu uma cerveja.
Teve de um tudo. Miguel falando de Playboy, um amigo do guri comendo a namorada no banheiro, alguém, que não me lembro do nome, só que tinha uma mão enorme que me batia o ombro toda piada contada, me oferecendo maconha. E eu rejeitei. Já estava bêbado, se eu fumasse um, ficaria louco que não lembraria o rumo de casa.
E não lembrei. Acordei na cama de Miguel, pelado, ele do meu lado. Fiquei branco, mais do que eu era. Miguel estava do meu lado, também pelado. O que havia acontecido eu não sei, mas fui pegando as minhas roupas, colocando meu chinelo, tentando deixar um bilhete de “muito obrigado, meu caro!” Mas Miguel acordou e falou que eu ficasse. Levantou e ainda nu – será que ele não notava que toda vez que passava perto de mim, seu pau me roçava – fez o café para nós.
Contou-me sobre tudo o que havia acontecido na noite anterior. Mas sobre o fato de acordarmos juntos e pelados na mesma cama, nada fora dito. Acompanhou-me até a porta e então me disse tchau, que nos víamos amanhã. E desde então nunca mais nos vimos. Comecei a fazer café em casa antes de sair trabalhar. Deixei de ver Miguel e sua cara de cavalo.
A bunda de Miguel me atormenta até hoje. Uma bunda branca, sem pelos, mas cheia de pintas. Uma afronta a qualquer homem. Penso nela como se fosse a transição para o mundo da felicidade. Um oásis. Mais para um portal. Quando o vi nu, fiquei excitado e nada fiz. Preferi ficar olhando a tentar fazer algo e me dar mal. Miguel poderia acordar e me bater, perguntar, mas o que está acontecendo aqui, meu irmão? E então eu não saberia como explicar aquele meu olho pidão e meu pau duro.
Olho o teto e vejo duas lagartixas brincando. Masturbo-me pensando em Miguel. Levanto e faço um café preto.

Conto originalmente publicado no Café com Whisky.

Amor de periferia

Sou bairrista, da periferia, faço compras no bairro, faço feira. Quem hoje faz feira? Compra-se em supermercado, compra limpinho, lavado, hoje fruta vem com etiqueta. Eu compro verdura e fruta eu tiro do pé. Como pastel de queijo com garapa. Toda quinta-feira. Tradição de família que aprendi com a mãe. Ir às quintas, comprar a verdura e comer o pastel. Eu sou bairrista e gosto.

Tem ali na esquina o Bar do Zé. Zé é o cara que ninguém sabe como se chama, mas que todos chamam de Zé. Já foi um mercadinho, tinha de tudo. Quando eu tinha na base de uns 6 anos minha mãe comprava as miudezas lá. Detergente, era sempre o que eu comprava. Detergente e cigarro. Mainha me dava o dinheiro e lá eu ia pedir para o Zé. Ele me dava, dava o troco e eu conferia. Sempre fui audacioso.

Hoje é o Bar do Zé. Balcão de granito, cadeira de plásticos. As garrafas de pinga e amarula perfiladas nas prateleiras. No Bar do Zé meu avô comia ovo colorido quase sempre, só não comia em feriado santo e final de semana prolongado, que ele nunca gostou de abusar. Chegava e pedia um rabo de galo e um ovo colorido. Em dia de festa pedia um Para Tudo, que ele dar um trato na velha. Meu avô falava isso no meio do bar, comigo do bar. Meu avô era um poeta.

Eu tinha um amigo quando criança que me chamava para ir à sua casa. Ele me punha debaixo, coloca um desenho no aparelho de videocassete e ficávamos a tarde inteira assistindo. Em casa não tinha essas tecnologias. Sempre teve computador, mas era para o pai. Ele me deu meu primeiro beijo. Foi em um dia de calor forte, ventilador estava ligado, me beijou e deu um sorriso e eu achei lindo. Mãe dele viu e chamou a minha, deu-se o rebuliço. Descobri que não era tão lindo.

Fiquei de castigo, apanhei algumas vezes e todas as vezes que minha mãe se lembrava do ocorrido, apanhava de novo. Ela esquece-se e eu esqueci também. Esqueci que a gente tinha que gostar de alguém, casar com alguém, fazer filhos. Beijar na boca. A única vez que eu beijei na boca foi com meu vizinho e nunca mais. Esqueci de tudo e fui viver a vida. Estudei, cresci, Sou um homem feito, pelos no peito, pelos nas coxas, pelos no pau.

Meu vizinho, depois de um tempo mudou-se. No dia em que ele foi embora, toda a vizinhança foi chamada para uma festa na casa dele. A minha presença foi vetada. Àquela época eu não sabia o que vetada significava, mas eu ouvi minha mãe falando, que havia sido vetada. Eu tinha 14 anos, ele tinha 15. Conseguira uma bolsa de estudos e estava indo morar fora. Achei bonito isso de ir morar fora sozinho. Fiquei feliz por ele. A gente já não tinha contato, nos olhávamos de longe, sorríamos. Conversávamos na escola, onde não havia quem nos pudesse controlar, mas nunca ousamos desobedecer nossos pais. Nunca mais nos beijamos.

Essa semana ele voltou. Vi-o de longe. Ele está forte, parece que faz academia. Eu já fiz, hoje não tenho muito tempo, tenho barriga. Hoje o encontrei na feira. Cumprimentamo-nos, perguntei como ele estava e disse que bem. Sorriu para mim e eu me perdi em tanta coisa que lembrei. Havia um filme que assistíamos quando crianças, que não me lembro o nome, mas duas crianças, uma garota e um garoto, se apaixonavam e davam o seu primeiro, mas um deles morre. Lembro que quando assistimos, eu chorei e ele sorriu. Disse que eu não me preocupasse porque era filme.

Hoje, quando ele me sorriu, eu quis chorar. Não chorei. Apertei forte a mão dele, dei um sorriso para a mãe dele, que sorriu de volta. Acho que não se lembra. Fui para e fui cozinhar. Minha mãe sabe que quando eu cozinho, estou resolvendo meus problemas internos. Então me deixa. Meu pai também. Chegou e ficou feliz de me ver cozinhando, mas deu um sorriso de canto, não entendendo o que havia de errado. Sentaram-se de frente comigo.

Comemos em silêncio, nada passa despercebido ao meu pai, que veio me perguntar o que havia acontecido. Eu não disse, mas ele sabia. Todos eles sabiam que o vizinho havia voltado. Na infância, pouco dei importância para o fato de ele ter ido embora, de nós termos sido censurados, mas com o tempo, toda ferida que não cicatriza, infecciona. Meu carinho por ele aumentou e depois foi enterrado. Não morreu. Fomos forçados a tudo. Talvez a maior força tenha sido gerada por mim.

Quatorze anos e no banheiro da escola e ele disse que me amava. Disse olhando nos meus olhos, suas mãos segurando as minhas. Mas eu não quis. Não tentou me beijar, não tentou tirar minha roupa, não nos masturbamos como era comum entre os garotos. Disse que me amava. E eu disse que sentia muito. Na aula de artes aprendíamos sobre perspectiva cônica e imaginei como ela aquele meu não influiria nas perspectivas de nossas vidas e nossas famílias.

Um bairro simples, não somos pobres, mas somos comuns, humildes. Não houve jamais um casal gay no bairro. Dois homens se beijando seria um insulto, uma aberração. Tudo que é diferente e desestabiliza a ordem comum das coisas, cria o caos e a periferia é calma, ela tem seus códigos que não devem ser violados. Por um tempo eu imaginei como seria nós dois morando juntos, nos amando e frequentando os estabelecimentos aqui do bairro. Iríamos ao supermercado fazer as compras do mês, às quintas, iríamos à feira para o pastel, a garapa e a verdura. Seríamos, quando velhos, assíduos no Bar do Zé, falando de política, dos direitos violados. Pediríamos um Para Tudo e piscaríamos para os velhos dali, porque a noite seria boa.

Mas também via toda essa cena inversa. Iríamos à feira e seríamos escorraçados, não haveria aceitação. Dois velhos veados num bar, junto dos machos, incapaz. Via-nos apanhando, morrendo. Sangue. Uma censura amena e forte como um dique que segura a água do rio. Com os anos fui acostumando com a ideia de que não dava, não era certo, não podíamos. Éramos sujos.

Lavando o carro na frente de casa, esponja grande na mão, o sabão de coco esparramado pela lataria, eu fiquei boa parte da tarde. Ele saiu e veio conversar comigo. Que lindo era. Tinha os braços fortes, era mais alto do que eu. Vestia uma bermuda e chinelos, um Deus que reluzia a luz do sol. Eu lavava o carro e fingia dar pouca atenção a ele. Disse-me da experiência fora do país, de como foram as viagens, as festas, as mulheres e de que havia voltado há 5 anos. Os dois últimos itens me doeram mais profundamente.

Ele conseguira transpor a barreira. Ficava com mulheres. Ele era um homem, era um perfeito homem, que saíra dali, fez a vida, voltou e agora é o filho prodígio. Tem as mulheres, como todo homem deve ter. Segura as suas cabras que meu bode está solto, era o que eu ouvia de algumas mulheres sobre seus filhos. Minha mãe nunca disse isso sobre mim, nunca quis.

Voltou há 5 anos e não veio me resgatar. Eu sorri tão tristemente que ele percebeu. Mas não entendeu. Talvez para ele tenha sido coisa de criança. E pode ser que tenha sido mesmo. Às vezes conferimos valor demasiado às coisas que vivemos e nem sempre bate com o valor real. A fantasia é tão mais leve, tão mais bela. Somos tão felizes de olhos fechados porque as imperfeições se perdem com a visão turva. 

Ele disse que entraria, o almoço estava quase pronto. Eu disse que tudo bem. E então ele fez a coisa mais máscula possível. Chegou perto de mim, me abraçou e me deu um beijo no rosto. Senti sua barba grossa, feita há no máximo dois dias. Os pelos me cutucaram e eu enrubesci de constrangimento. Os vizinhos estariam olhando? Eu seria mais uma vez piada da rua? Já via todos nós tendo que brigar pela própria paz. Ele me soltou, piscou para mim e disse que era bom demais me rever.

Esqueci o carro, deixei como estava e coloquei na garagem. Sonhei com ele nos dias seguintes e tive febres fortes. Contorcia-me na cama, meus pais chamaram médicos, dois, e nada resolvia. Via ele nos meus sonhos e em todos eles nada acontecia. Ele me abraçava, me beijava. Na boca. Ele escorregava a barba por todo meu rosto e me beijava a boca. Abraçava-me inteiro. Sentia-me abraçado nos braços, nos pés, no pau. Eu o sentia inteiro em mim.

Recobrei a consciência e fizeram festa. Mas ele já havia partido para a capital. Estava noivo. Uma linda garota loira, de olhos verdes, era garota-propaganda de uma marca de lingeries. Sortudo. Pegou a mulher mais linda. Eu poderia ter sido seu homem, seu tudo. Sua vida. Faria comerciais de cueca, se ele quisesse, ficaria nu, tiraria fotos inusitadas. Caras sérias, boca pouco aberta indicando uma sensualidade para qualquer foto. Mas ele a preferiu. Sorte a dela. E dele.

O bairro todo iluminado, luzes nos postes. Sábado e festa junina. Subi no pau de sebo e peguei cem reais. Dei para minha mãe. Ela riu e agradeceu. Devolveu-me dizendo que era para eu sair com alguma garota, ir a um cinema, viver. Não aceitei de volta. Fui perto da fogueira e o fogo queimava as madeiras. Quis atirar-me ali, fazer as coisas acontecerem como deviam. Morrer talvez fosse a melhor resposta para tudo, mas seria egoísmo, também. Meu pai e o pai de meu vizinho soltaram um balão, queimou até virar cinza no céu. Tudo estava em paz na periferia. Em breve eu me casaria com uma morena de parar trânsito. Seria feliz. Teria filhos e envelhecia bebendo uma boa pinga no Bar do Zé.





[Ouvindo: Gal Costa - Hotel de Estrelas]

Dia triste

Pensei que não fôssemos nos ver nunca mais. Foi isso o que lhe prometi, lembra-se? Disse com todas as letras que você nunca mais tornaria a olhar em mim. Qual não foi a minha surpresa quando, pela manhã, abri o jornal e me deparei com você ali.

Era o café da manhã, as coisas estavam calmas até então. Eu havia me levantado, feito a barba, me vestido e tomava café. Café que tomávamos juntos, mas que agora tomo sozinho. Troquei a marca do café. Abri o jornal e tinha sua cara estampada no caderno de Cultura&Lazer. Seu sorriso maquiavélico, os dentes bem perfilados, uma boca molhada que eu percebi de imediato, mesmo a foto sendo em preto e branco.

O seu nome pairava em cima da foto, junto das letras grandes que promoviam a sua exposição. E aquilo foi o suficiente para me fazer tremer.

Sentei mais sossegadamente no sofá, pensei alguns minutos, abri o caderno do jornal para ver se eu realmente havia lhe visto ali ou se era pura imaginação, saudade, coisa banal que o coração apronta. Que nada, você ainda estava ali. E eu não resisti quando a mente começou a me lembrar de você e cada detalhe seu.

Tentei fugir ao máximo de todas as reminiscências, todos os lugares. Olhava para a janela e via uma tela de cinema onde passavam todas as cenas do nosso filme. Sem fim, meio filme do Almodóvar onde as coisas ficam penduradas, suspensas, mas sem vermelho algum para me fazer feliz ou elegante.

Sai para trabalhar e chovia. Peguei o guarda-chuva, mas as minhas pernas insistiam em molhar. Dobrei a calça social e deixei que o sapato fosse molhado pelas poças d'água. Não havia o que fazer, a chuva é irremediável. Quando começa a cair, não tem quem a pare.
Pensei em você quando vi a chuva caindo.

Lembrei do jornal, lembrei das nossas brincadeiras na varanda, Korn tocando no aparelho de DVD, o acústico. Você me fodendo na sacada, de madrugada, perigo de alguém nos ver, mas estava tudo bem. Éramos nós. Irremediáveis.

Fomos irremediáveis até que remediados fomos pela vida e pela dor. Pela presença de quem não devia estar ali conosco. Algo não planejado. As coisas são assim, tristes mesmo. Um dia a gente ama, noutro a gente desgosta. Que a vida tem um tanto de ruas e a gente se prende às vielas. Vai saber.

Vi um cartaz grande em frente ao prédio onde seria a exposição. Caminho do serviço. Ainda chovia. Aproveitei para me proteger sob a marquise. E você estava lá.

Dentro da galeria.
E me olhou. 

A princípio só minhas pernas tremeram. Você parado, estático, me olhando. Nada acontecia. As pessoas passavam por mim, falavam ofensas - havia me esquecido de fechar o guarda-chuva - e eu só ficava a lhe olhar. O tempo parou um bocado de tempo. Minutos que se arrastaram. A tua boca que me chamou de tantas formas e meu corpo preso ao chão.

Você andou para a porta, chegou perto de mim e me abraçou. Perguntou como eu estava e eu disse que estava tudo certo. Falamos do tempo, dessa chuva que atrapalha tudo, não é?

É.
Atrapalha
(e eu só conseguia olhar sua boca)

Lá dentro você organizava tudo pelas paredes. As pinturas. Todas lindas. Fazia um apanhado de tempo que eu não parava pra analisar o que você pintava. Bem bonito. E eu via muito de nós ali. Eram fotos que inexistiam como movimento, captavam justamente o aspecto estático dos seres humanos e do corriqueiro.

E aquilo me bastou. Fui embora. Não me despedi.

Na rua podia sentir os olhares me julgando por ter entrado na galeria, por ter falado com você. Por ter aceito o seu abraço. Que grande besteira. Mas a verdade é que eu queria senti-lo de novo perto de mim. Ficar sozinho não me apetece, não me agrada.

Corri como pude, perdi o guarda-chuva no meio do caminho. Molhei toda a roupa. As calças dobradas, molhadas, agarradas ao corpo, eu cheguei no escritório parecendo um louco. Assustei todo mundo. Eu estava assustado por dentro, acho que isso transpareceu para quem me via.

Corri ao banheiro.
E chorei.

Entristeci de uma forma, que não consegui fazer nada o dia inteiro. Chorei. Só chorei. Vez ou outra um colega de trabalho me trazia um lenço, uma palavra, algo para comer. E eu declinava de todas as gentilezas. Desisti de trabalhar aquele dia, mas não queria voltar para casa.

Sai do escritório e ainda chovia. Chuva torrencial no Rio de Janeiro, a previsão do tempo não sabia quando cessaria aquela água toda e, verdade seja dita, queria mesmo era que nunca acabasse. Que a água chegasse até meu apartamento e levasse consigo todas as lembranças entremeadas nas paredes.

Fui para a praia, tirei os sapatos e as meias. A camisa. E entrei no mar de calça. Um louco querendo nadar. Não sabia direito, mas esperei atenciosamente que as ondas pintassem meu corpo, me fizessem ter algum sentido. Era vazio demais para um homem só.

Afundei.
E encontrei a redenção. 




[Ouvindo Nicolas Jaar - Noise]

Traição à moda antiga

Verônica fechou o celular depois de ler a mensagem que acabara de chegar. Entre o susto e a tentativa de não demonstrar o abalo, chamou a filha para ver se já estava pronta para a escola. Terminou de arrumar seu cabelo, lhe deu um beijo e a acompanhou até o portão, onde a van que a levava para a escola todos os dias já esperava.

Voltou para dentro de casa e tentou acalmar-se enquanto lia a mensagem novamente. Nela, ele dizia que iria até a sua casa hoje, caso ela não retornasse suas ligações. Ficou desesperada, a filha e o marido não estavam em casa, ficariam o dia todo fora - ela na escola e ele no trabalho. A filha estudava em tempo integral e o marido, apesar de ser dono do escritório de contabilidade, exercendo durante anos a sua função em casa, nos últimos meses passou a ir diariamente para o escritório, não poupando alguns sábados, e voltando no começo da noite.

Fora logo no começo desse estranho retorno do marido ao escritório que Verônica o havia conhecido. Alto, forte, pai de uma das colegas de sua filha, eles se conheceram em uma reunião da escola. Logo passaram a tomar café juntos, dividir suas leituras e caminhar sossegados pela praça da Independência, no centro da cidade. O centro sempre era escolhido, porque ambos eram casados e a possibilidade de serem vistos juntos era quase nula.

Havia meses que Verônica não beijava seu marido. E não sabia dizer o porquê do distanciamento. Um dia enquanto conversava com algumas amigas, uma delas a perguntou quando fora a última vez que seu marido a havia beijado e ela, sem saber responder, disse apenas que não sabia. E não sabia porque não lembrava. 

Dez anos de casamento já haviam se passado e o casamento havia caído na rotina. Transavam semanalmente, quase sempre aos sábados, davam um beijo de despedida e outro quando ele voltava do trabalho, casualmente, sem nenhuma paixão. E só. Esse era o contato que mantinham. Não se desgostavam, mas não havia mais a paixão dos primeiros anos, do namoro escondido dos pais. Tudo isso havia acabado.

E então ele apareceu, aquele homem lindo e disposto, e ela não conseguiu resistir às investidas. Passou três meses o beijando. O beijou como quem nunca havia beijado outro alguém. Ele, de início se assustara, mas depois acostumara-se. Não era seu plano ter uma amante para beijar, queria transar, seu casamento também havia caído na rotina e ele queria saber como era ter outra mulher. Amava a esposa, mas não conseguia ter com ela os bons momentos que havia imaginado no início do casamento.



Uma segunda mensagem chegou enquanto ela lavava a louça. Era ele. Estava no portão. Seu coração disparou sem saber direito o que fazer. Exitou um pouco antes de tomar qualquer atitude e foi conferir a veracidade da mensagem pela janela. Ele estava mesmo em frente à sua casa. O que esse louco veio fazer aqui?, perguntava-se enquanto procurava as chaves de casa.
Foi até o portão, abriu e mandou-o entrar, enquanto cumprimentava a vizinha.
- Olá, Dona Matilde.
- Oi, Verônica, tudo bem?
- Tudo ótimo. E com a senhora, como vão as coisas?
- Tudo na santa paz de Deus.
Trocaram um pequeno meneio de cabeça, como dizendo que o pequeno diálogo havia acabado e voltou-se para dentro.

Chegaram à sala e, logo ela havia fechado a porta, ele a agarrou e a beijou demoradamente. Ela não resistira  Nunca resistiu.Todas as vezes que brigaram, ele a ganhava de volta com um beijo demorado. Se seu esposo não a beijava mais, por que ela se queixaria de outro homem o querer fazer?
- O que você veio fazer aqui? - Verônica perguntou, entre um beijo e outro.
- Beijar você. - respondeu.
- Eu estou falando sério, caramba. Nós somos casados, se meu marido chega e nos pega desse jeito, ele nos mata.
- Tem certeza? Para quem não a beija há meses, duvido que ele tanta tal atitude.
Apesar da maledicência do comentário, ela riu. 

Nunca falou do marido com ele. Tampouco ele falava da mulher. Falavam muito dos filhos e de suas vidas. Ela havia largado o emprego para engravidar e depois do filho nascido, decidiu ficar em casa para criá-lo. Saíra do mercado de trabalho para ser mãe e ainda hoje não se arrepende. Sempre ouvia histórias das amigas que haviam deixado de trabalhar para criar seus filhos e em todas elas o final era o mesmo: o arrependimento reinava. Com ela sempre fora diferente. Decidiu-se pela filha e nunca quis sair de casa novamente. A estabilidade do marido, talvez, tenha sido um dos grandes fatores, mas ela não costumava pensar nisso.

- Agora, sério, diga-me: o que você veio fazer aqui? - perguntou Verônica, enquanto colocava a calcinha.
- Vim tentar fazer você mudar de ideia - disse ele ainda nu, fumando e encostado à porta da sala.
- Eu não mudarei, caramba, não quero mais ver você.
- Então por que abriu o portão para mim?
- E o que eu deveria ter feito? Deixado você lá fora, enquanto minhas vizinhas o mediam? Você sabe quão fofoqueiras elas são? No mínimo, elas falariam com meu marido quando ele chegasse à noite do escritório.
- Bela desculpa - ele riu de canto.
- Por que você está aqui? Vá embora. Já conseguiu o que queria, agora vá.
- O que eu quero é você. Para sempre. Você não pode me deixar.
- Tanto posso que já o fiz. Você também é casado, não vai se separar por mim. Disso eu sei e nós já conversamos sobre isso.
- Mas eu não posso mais viver sem você, você me completa, aquilo que falta na minha esposa, você completa.
- Eu sei, você foi o mesmo para mim, mas meu marido anda desconfiando e não posso deixar que ele descubra. Só de haver a possibilidade de uma traição, nós quase terminamos, imagine se um dia ele tiver certeza? Meu casamento desmorona.
- Ele não vai descobrir. Nós sempre nos certificamos de que nenhum rastro fosse deixado.
- Mas esse tipo de coisa a gente sente.
- Ah, não me venha com essa.
- É verdade, eu estou diferente desde que lhe conheci. Você também deve estar diferente com sua esposa e tenho certeza que ela desconfia. Vai me dizer que não?
- Já me fez uma ou outra pergunta, mas sempre consegui me sair bem.
- Pois então, é  questão de tempo até que ela ou meu marido descubra. Nós não podemos nos arriscar.
- E por que não? Nós não merecemos, também, sermos felizes?
- A nossa felicidade implicará na infelicidade de duas famílias, você acha isso justo?

Não achava e por isso ficou quieto. Essa não era a primeira vez que ela o deixava e ele implorava para voltar. Duas vezes antes já haviam acontecido. Ambas porque estavam a pouco de serem descobertos.



Um dia, depois de se encontrar com ele, Verônica chegou em casa e seu marido já estava lá. Levou um susto grande quando o viu sentado na sala, à sua espera.
- Nossa, mas você já está em casa? - perguntou Verônica, desconcertada.
- Onde você estava?
- Fui ao supermercado -  ela disse, rindo nervosamente.
- Mas onde estão as compras?
Ela nada tinha nas mãos e então, procurando uma desculpa decente, disse - Ah, eles estavam fechados, tentei procurar outro supermercado aberto, mas parece que houve uma queda de energia e os supermercados da avenida fecharam. Vê se pode?
- Verônica, você acha mesmo que eu vou acreditar nisso?
- E por que não acreditaria, se é a verdade?
- Dona Matilde me disse que você saiu às 15, já são 19. Você precisou de 4 horas para se certificar de que os supermercados estavam fechados?
- E você vai acreditar na Dona Matilde? Ela é uma velha, meu amor, como ela pode saber que eu saí às 15 se nem na rua ela estava? Ela deve ter se confundido.
- Verônica...
- Acalme-se, pare de ser besta, eu já te dei algum motivo para desconfiar de mim?
- Não, mas isso está mal contado, pô!
- Invenção da sua cabeça. E essa discussão está terminada, o que você quer para o jantar?

A outra desconfiança partiu da esposa dele, mas nem chegaram a discutir. A pobre era submissa a ele e tudo o que dissesse, acabava acatando.



- Verônica, eu não saberei viver sem você.
- Não diga isso, você não nasceu colado a mim. Eu não sou sua. Eu estou na sua vida, mas não posso mais ficar. Os nossos encontros estão cada vez mais difíceis de se realizarem e uma hora ou outra nós seremos descobertos. Ouça-me, você arcará com as consequências?
- Eu não sei.
- Viu, você nem sabe se conseguirá resistir a isso.
- Mas nós nos amamos, não?
- Não creio nisso.
- Como não? Se não nos amassemos, qual seria o propósito disso tudo? Esses meses nada significaram?
- Claro que significaram e sempre vão ter sua importância em mim, mas eu não lhe amo. Tenho profundo carinho, um tesão enorme e em você encontrei aquilo que eu esperava. Beijei você durante meses. Não fizemos sexo tão logo justamente porque eu queria era beijar-te. Mas saciada a sede, tudo que vai além, só faz mal. Se não engorda, mata.

Ele percebeu que nada havia para fazer que a demovesse da ideia de se separarem. Levantou e vestiu a cueca. Andou até ela e deu o último beijo. Vestiu-se e foi embora.

Verônica então chorou. Chorou como quem perde um filho, como quem perde a mãe em uma acidente de carro. Ela, ali, perdia um grande companheiro, coisa rara de se achar. Compartilhar loucuras, dilemas e vontades muito íntimas, nós só conseguimos se houver companheirismo no relacionamento. De nada adianta o amor, mesmo sendo importante, se ele for cego ou preconceituoso às vontades do outro.

Chorou pelo amigo que perdeu e pela felicidade que viveu durante todos os anos. Viam-se quase todos os dias, em lugares distantes. Em outras cidades, dentro de cafés, cinemas, bares. Já ousaram inventar compromissos de uma semana para passarem juntos, andando, conversando, descobrindo-se um no outro e beijando-se.

Verônica, há muito, não deixava de sorrir. Recebia as visitas que o marido trazia para a casa e cozinhava para elas com um grande sorriso no rosto. O comentário que se fazia é de que Verônica era a esposa que qualquer homem desejaria ter. Linda, inteligente e prestativa. Havia deixado o mercado de trabalho para dedicar-se inteiramente à família. Mas que mulher era ela!

Enxugou o rosto e recompô-se. Tratou de arranjar o jantar, que dentro em breve marido e filha estariam de volta. No fim da tarde a filha chegou e passando pela sala, viu um cinto jogado no chão. Era dele. Pegou e disse a filha que deixou cair ali enquanto pegava as bagunças pela casa. A filha nada disse. Nem tinha o que desconfiar, era nova, não entendia ainda as coisas da vida. Talvez nem Verônica entendesse, mas há essa visão de que a vida adulta traz as respostas que tanto se procura quando mais novo.

Guardou o cinto dele na sua gaveta de calcinhas. O marido nunca foi de fuçar no guarda-roupa. Sabia que ali a última lembrança do seu segredo estaria bem guardada.

Ouviu a porta se abrir e o marido entrar pela sala. Foi em direção a ele e, sem explicar tampouco ele entender, o beijou demoradamente. De língua. Abrindo a boca como quem tenta comer uma fruta grande demais. Ele a beijou de volta e ficaram assim alguns minutos até que se soltaram. Ela o olhou por algum tempo e então serviu o jantar.

Mesmo que nada tenha sido dito, ele sabia que sua esposa estava de volta. Verônica seria outra a partir de agora. Não que ela se sentisse culpada. Não. Verônica havia reabastecido as próprias energias. Ele havia sido seu recarregador e agora ela poderia se empenhar inteiramente à família. 

Sentou-se e jantou junto dos que ama, olhando a janela aberta e uma linda lua cheia no céu.