Minhas paredes



No fim de tudo, a gente é sozinho, sabe?
Olho em volta
Meço os móveis, os quadros,
olhos os gatos deitados na sala
e só recebo resposta
das paredes brancas do meu corredor.
Ecoam vozes, as minhas,
e calam-se.
Mas são vivas, vibram, dizem e embalam.
Converso com as paredes
enquanto leio, trabalho, trepo.
Elas são minhas guardiãs.
À noite, quieto na cama,
ouço,
com certa aflição,
elas conversando sobre o dia que viram.
As paredes, tem olhos, também.
Coram com a reminiscência
e, de brancas, acordam rubras,
como se alguém as tivesse pintado,
com pouco esmero, de vermelho.
Mesmo assim,
me dizem bom dia e traçamos o sábado,
o domingo,
elegemos as prioridades da segunda.
Caminhamos juntos.
No fim de tudo, depois dos anos,
depois da guerra
e das mortes,
depois que a juventude for,
que só restarem as dores da velhice
e a lembrança dos amigos,
ainda assim, me restarão as paredes
e a sua liberdade.

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