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Homem VII

É que sua boca
e você inteiro, seu corpo,
são para mim como um deus
escondido em terras mundanas.
Paraíso carnal, os pelos em volta,
uma barba rala como são meus sentidos,
fracos,
perto de ti.
A vertigem me ataca
e eu caio, me agarro em você
e por pouco não te bulino sem querer,
querendo. E muito.
Desceria os morros todos, mas...
É sua boca que me chama.
Chama de vadia,
enrosca os pés embaixo da mesa
e me acaricia o pau, 
amainando o seu pulsar.
Sua boca, rosada, comida.
Eu te foderia inteiro só pela sua boca.
E te jogaria na minha cama.
E seria só seu
justo eu que sou de tantos.

Homem VI

Respondi ao toque como quem responde a um "olá".
Voltei-me inteiro e sorri.
Um toque e nada mais. Não houve malícia,
maldade, mas houve o toque,
que eu pude sentir inteiro em mim.
Uma mão áspera, que pegou a minha, 
apertou como um homem viril deve apertar,
largou-a e foi embora.
E desde então tenho sonhado com a bendita mão,
seu aperto e seu dono.
Um homem comum,
que veste calça jeans, 
blazer à noite,
camisa xadrez de dia,
e aos finais de semana,
cansado da burocracia tola da vida,
investe em uma bermuda e uma camiseta de time.
Que sorri pouco, mas que é alegre,
de cabelo grisalho, barriga proeminente,
olhar de animal.
Um homem em que nada excede,
senão em sensualidade.
Um tipo raro que não sabe o que provoca,
que não faz pose, mas é uma estátua,
lindo, provocante, quieto.
Sonhei comigo tocando-o inteiro,
ele parado, sentindo e nada dizendo,
provando por a + b quem manda.
Quando pegou a minha mão e se apresentou
eu entendi tudo errado. Não sei seu nome,
nem para quem trabalha.
Se me disse onde mora, eu não sei;
Se me disse algo interessante, eu não sei.
Sei que sua boca, fina e meticulosamente diabólica,
sorriu e foi embora.
Junto dela, a mão e o aperto.
Na estrada de terra, em frente a minha casa,
ele foi e eu ouvi o barulho das pedras
sendo esmagadas pelos pés.
Hoje penso que ele deveria ter voltado,
me pego pela cintura,
olhado com fome para mim
e me beijado até sugar toda a minha vida.
Eu sentiria sua saliva,
eu o tocaria na alma e então seríamos conhecidos.
Mas como isso não aconteceu,
escrevo aquilo que sei dele: nada.
E se um dia voltar a vê-lo,
volto pra contar.

Homem V


A Jefferson Rodrigues

De canto eu olho
e vejo você
quieto, amarelo, 
moreno de sol,
um tesão sem maior.
Te olho, encaro,
faço o sinal da cruz
pela tentação
em que caio,
mas não há jeito
seus pés me enredam.
Fetiche mais estranho,
me faz parecer
animal,
selvagem,
sem estudo. 
Quase babo quando você passa
e diz olá!
Espera resposta, 
abre sorriso
se acha inofensivo
mas quando sonho
você me espanca,
marginal.
Eu deito à noite
e imagino os dedos,
os pelos e o cheiro,
um homem completo.
Sem medo,
sem receio, você me pisaria,
escarraria em mim
e espalharia com o pé,
nas costas, na bunda.
Em mim todo, 
você está em mim todo.
E de você
enxergo tudo.
Há um desenho nos quadris
quando sentam;
Dobra as pernas
e as panturrilhas
me ameaçam;
O sorriso me come,
me estupra e violenta,
porque tudo que é lindo
machuca, 
dói um pouco.
Talvez seja cobiça.
Que seja.
Mas os pés, ah os pés,
eles me maltratam o sono,
a vida, a concentração.
Não penso, 
não deito, sou refém.
Espero o dia
que você me note,
espero o dia
que o seu pensamento cruze o meu
e minha vontade seja saciada.
Enquanto isso,
você passa e sorri,
pisca pra mim
e no quarto, à noite,
por você
eu gozo.


Homem III

Os mais irresistíveis são os guris que calçam chinelo.
Eles andam despreocupadamente
por entre as ruas, desafiando o comércio,
porque estão indo e vindo de lugar algum. 
São livres para amar, livres para viver
aquilo que lhes aflorar à vontade
no instante do querer.
Andam aos bandos, passam perto de mim,
em frente o escritório 
e meus pés doem dentro dos sapatos.
Vejo-os sem camisa, às vezes de sunga,
mas o detalhe que mais me marca
são seus pés que calçam chinelos.
Donos de si, eu os desejo internamente,
faço loucuras com seus dedos,
suas pernas cabeludas, tão inocentes,
guris tão jovenzinhos
e que já, tão cedo, provocam em mim
sentimentos tão sexuais.
Soubessem o que passa aqui dentro
certamente não desfilariam seus pés
livres para qualquer um. Ou, sim,
desfilariam em tom desafiador,
dizendo que os pés os pertencem
e não a mim.
Ah, como são irresistíveis os guris que calçam chinelo,
que também calçam malícia, indecência,
que calçam o frescor da juventude
e calçam o sorriso que derruba 
o pai de família e seus segredos.
Preso dentro desse personagem,
eu almejo, um dia, poder viver um desses guris.
Seus pés, seus floreios e sua indecência
em vestir os chinelos tão sossegadamente.

Homem II

Saio à rua e deixo minha vida dentro de casa.
Cá dentro sou o cara decente,
bem vestido, que se comporta.
Um exemplo.
Mas exemplos servem de quê?
Pra quê?
Eu detesto exemplos. Não os sigo.
Mas lá fora sou o outro.
Visto uma lingerie por baixo da bermuda.
Visto também um camiseta velha
e tênis sem meia. Pareço inofensivo.
A rua tem suas surpresas.
Nem tudo lá faz mal, é vil.
Tem muita gente boa andando por aí,
fazendo conversa na esquina, puxando papo,
querendo um pouco de atenção no bar,
dizer do que sofre, porque sofre.
Nós, na maioria das vezes,
só precisamos de um pouco de atenção
e uma pitada de luxúria
pra afogar qualquer lembrança.
E eu gosto disso.
Quantos homens eu já não peguei assim.
Entro no primeiro botequim lotado.
E começo a conversar.
Faço piada, jogo bilhar,
tento conversar com os caras.
De início, são todos mal encarados,
mas depois da quinta cerveja, me abraçam
e contam suas vidas.
No fim de toda a noite há sempre um banheiro ocupado
sendo cenário de uma foda.
Eu não os forço, não os arrasto,
como a gíria popular designa.
Eu só lhes dou atenção.
Paro, depois das 4 da manhã
para lhes ouvir.
Contam da esposa que não quer mais sexo,
dos filhos que só querem dinheiro;
os homens são todos iguais.
No geral, o ser humano é bem parecido.
Todos temos problemas nos relacionamentos
e, em algum momento, perdemos aquele laço
que mantinha tudo atado.
Passo a mão por cima das mãos deles.
Há um primeiro susto. Eu pisco, 
falo uma besteirinha no ouvido,
quem vai saber? a gente se conhece? é tranquilo!
e a noite, nossa cúmplice,
deixa os rastros de toda loucura.
Incauta, a maldita.
Há sempre o espanto da lingerie,
hoje uso vermelha.
Destoa da pele branca, faz charme.
Não faço mais que abaixar a calça
e empurrar a lingerie para o lado.
E todo pai de família
se deleita e faz valer seu direto à felicidade.
No final me beijam e agradecem.
Nunca cobrei,
fosse para cobrar eu não faria.
Porque o lance está no desconhecido,
no obscuro, em manter uma relação afetiva, 
mesmo que de uma noite.
Volto pelas ruas. Ando sem destino.
O sol, já grande no céu,
diz que é hora de voltar pra casa.
De fora, vejo meu apartamento respeitável
e me sinto um pouco vazio, sem sentido.
Porque sou outro, sou a noite,
sou a sujeira, a deturpação, o menosprezo,
o asco, o pedaço da sociedade jogado no ralo.
Por gosto e discurso.
Não há nada mais belo na vida
que experimentar as sensações
que o destino e o desejo me proporcionam.
Mesmo que seja um homem desconhecido
em um canto sujo qualquer do Brasil,
me fazendo mulher e sufocando uma dor mútua,
quieta e tácita.

Homem I



Uma pena nego achar estranho
quando alguém chega e diz "te amo"
porque é essa minha vontade
vendo o moreno do outro lado da rua.
Sua janela aberta, ele se secando,
acho que gosta que o olhem
porque seu corpo, e todos os grandes detalhes,
são o assunto nos elevadores.
Uma mistura de tentação com maldade,
assim eu definiria seu corpo.
A bunda, as pernas, coxas peludas,
quem disse que amor não é saliva
não tem a paisagem que eu observo.
E se seca, roça a toalha no corpo todo,
deve ter aquele barulho típico
de toalha quando seca o corpo,
que roça e deixa quente;
minha boca: um mar, tanta água e sal.
Coloco o pau pra fora e me masturbo,
o homenageio todas as noites.
Apago as luzes, pego uma cerveja
e sento em frente à janela.
Chega, tira os sapatos.
Ele de meias e cuecas... deve ser o demônio.
Há um desenho exótico, os oblíquos,
deve ser a bunda, um pouquinho caída,
tão carnuda.
Banha-se e volta, com a toalha enrolada.
Então a tira.
E nesse pequeno instante
(entre a queda da toalha e o vestir da cueca)
o mundo para e sua torcida grita.
É gol, bola e tudo dentro da rede.
Gozo, pelado. Limpo com papel higiênico
e durmo gostoso pensando
que o diabo tenta a gente de toda forma.
E eu, timidamente, com meus receios cristãos,
o agradeço!